Desmistificar a economia para evoluir, escolher e viver melhor

Defendo que economista não faz previsões e sim projeções. Ou seja, a partir de leitura de cenários e tendências, busca projetar futuros. 

Para isso, todo fim de ano, faço uma pausa intencional para olhar adiante. Não para tentar prever o futuro com fórmulas prontas, até porque não acredito nisso, mas para conseguir olhar e analisar os sinais do presente que já apontam os próximos movimentos, no caso aqui da economia e das finanças. 

Acredito que economia não é um tema distante, técnico ou restrito a especialistas. Economia é a ciência da vida real. Está nas escolhas que fazemos, nos sonhos que adiamos ou realizamos, nas oportunidades que surgem e nos limites que precisamos respeitar.

Desmistificar a economia, para mim, é tirar o peso do medo e da complexidade excessiva. É traduzir conceitos para que façam sentido no cotidiano das pessoas. 

E este propósito nasceu quando eu decidi empreender e reescrevi meu propósito pessoal que é: evoluir sempre, proporcionando evolução ao próximo também. Na ocasião meu questionamento foi: como posso proporcionar evolução ao próximo através de meu trabalho?

A partir deste questionamento foi fácil chegar a meu propósito corporativo de “Desmistificar a economia”, pois me apaixonei por economia ainda na pré-adolescência. Não por pelos números ou teorias, mas na tentativa de entender a vida. 

Queria compreender por que algumas pessoas tinham escolhas e outras não. Por que o dinheiro entrava de formas tão diferentes nas casas. Muito antes da teoria que eu aprendi na prática que a economia impacta diretamente o bolso. É ela que determina nossas finanças e o dinheiro que a gente tem ou não para viver.

Minha história é, sobretudo, como o poder de um sonho e o ato de como aproveitar oportunidades podem desafiar estereótipos, superar estatísticas, piadas maldosas, preconceitos e falta de dinheiro.

E assim eu posso afirmar que quando alguém entende como a economia funciona, essa pessoa amplia seu poder de escolha. E escolha é liberdade.

Desta forma, encerrando mais um ano da newsletter Desmistificando a Economia, compartilho a minha visão sobre quais serão as principais tendências em economia e finanças para 2026. 

Trago reflexões econômicas, comportamentais e humanas, porque dinheiro não é apenas número. Dinheiro é meio, não fim. O dinheiro serve para nos servir, e não o contrário.

 

  1. Educação financeira como competência obrigatória nas organizações

A ampliação da NR-1, ao incluir os riscos psicossociais, marca uma mudança profunda na forma como as empresas enxergam o bem-estar das pessoas. E ao falar em bem-estar é preciso falar de dinheiro.

Estresse financeiro, endividamento recorrente e insegurança econômica deixam de ser tratados como problemas exclusivamente individuais e passam a ser compreendidos como riscos organizacionais.

Neste contexto, a educação financeira assume um papel institucional e estruturante. Políticas, programas, indicadores e ações contínuas que impactam clima organizacional, produtividade, absenteísmo e saúde mental. 

Mas é preciso que o movimento de cima para baixo, no qual a empresa reconheça que cuidar da saúde financeira das pessoas é também cuidar da sustentabilidade do negócio, pois ninguém consegue ser produtivo enquanto está com a cabeça cheia de boletos e com o saldo negativo.

Em 2026, veremos mais organizações incorporando educação financeira como parte da estratégia de gestão de pessoas, da prevenção de riscos e da responsabilidade corporativa. Economia entra definitivamente no centro da agenda empresarial.

 

  1. Saúde financeira integrada à saúde emocional

Embora conectada ao ponto anterior, essa tendência nasce em outro lugar: na vivência individual. 

O dinheiro carrega emoções, histórias e crenças. Medo de faltar, culpa ao gastar, ansiedade ao lidar com contas, vergonha de falar sobre dificuldades financeiras.

Aqui está uma distinção fundamental. Enquanto o ponto 1 trata da estrutura institucional, este ponto trata da transformação humana. 

Educação financeira deixa de ser apenas técnica e passa a ser consciência. Não basta saber fazer conta se não sabemos lidar com nossas emoções.

A empresa pode oferecer programas de educação financeira, mas quem deve colocar em prática em sua vida é você.

Esta inclusive é a diferença entre educação financeira e inteligência financeira. A primeira são os conhecimentos adquiridos sobre finanças, enquanto a segunda são as ações. 

Em outras palavras, a inteligência financeira é a educação financeira colocada em prática. 

Saúde financeira e saúde emocional caminham juntas. O dinheiro precisa ser visto como meio e não fim, como apoio para a vida, jamais como fonte constante de sofrimento. Quando mudamos a relação com o dinheiro, mudamos a relação com nós mesmos.

 

  1. Planejamento financeiro como estratégia de sobrevivência e tranquilidade

Planejar financeiramente deixa de ser considerado algo somente para quem tem muito dinheiro para ser algo acessível a todos.

Em um cenário de instabilidade econômica, mudanças no mercado de trabalho e aumento do custo de vida, o planejamento se torna uma estratégia de consciência e proteção.

Planejar não é controlar cada centavo, mas dar direção ao dinheiro. É decidir antes para não ser refém das urgências. Quando não planejamos, o dinheiro manda. Quando planejamos, o dinheiro serve para nos servir.

Em 2026, planejamento financeiro será cada vez mais visto como ferramenta de saúde, e não apenas de organização.

 

  1. Consumo mais racional e consciente

Vivemos em uma economia que estimula o consumo constante. Como resposta, cresce um movimento de consumo consciente, mais racional, alinhado a valores e ao momento de vida.

As pessoas (e eu torço para que mais e mais pessoas) começam a questionar antes de comprar. Não se trata de consumir menos por culpa, mas de consumir melhor por consciência. Use as coisas e ame as pessoas. Quando invertemos isso, o dinheiro perde seu papel e gera frustração.

Trago aqui a lembrança da Regra dos 3 P’s. Uma ferramenta simples e muito prática que funciona como antídoto nas crises consumistas. Eu uso, ensino e recomendo porque ela nos traz consciência em segundos.

Aqui você valida a utilidade se é para atender uma necessidade real ou só um impulso.

Você avalia a necessidade imediata e testa se é algo urgente ou pode esperar.

Você analisa se pode pagar sem sacrifícios. Sem entrar no cheque especial, no rotativo do cartão ou comprometer seu planejamento.

 

  1. Inteligência artificial como aliada da gestão financeira

Eu sei que as vezes assunta e incomoda, mas não adianta fugir, tampouco demonizar a inteligência artificial. Ao invés disso, use a seu favor. 

A tecnologia avança rapidamente e a inteligência artificial passa a apoiar a organização financeira pessoal e empresarial. Ferramentas ajudam a mapear gastos, identificar padrões e simular cenários.

Contudo, há um ponto essencial: tecnologia não substitui consciência, a verdadeira inteligência humana. 

Sem educação financeira, a IA apenas organiza o problema. Ela não decide prioridades nem define valores

Em 2026, a diferença estará em quem usa a tecnologia como aliada, e não como muleta.

 

  1. Educação financeira intergeracional

Educação financeira deixa de ser assunto tardio e passa a atravessar gerações. Famílias e empresas entendem que falar de dinheiro desde cedo constrói autonomia, responsabilidade e visão de futuro.

Pesquisa recente divulgada pela Serasa demonstra a mudança de mentalidade da geração atual de pais. Embora 56% dos pais nunca conversaram com seus pais a respeito de finanças, sendo o percentual maior entre as mulheres (65% mulheres e 48% homens) e ainda superior quando separado por classe social, 64% das pessoas pertencentes as classes D e E nunca ouviram falar de finanças quando criança, ainda assim os pais da atualidade conversam com seus filhos sobre dinheiro.

Mesmo nunca tendo conversado sobre dinheiro na infância, 8 em cada 10 pais dizem que falam com seus filhos sobre dinheiro e que o assunto é introduzido, principalmente, quando é necessário dizer ao filho que não é possível comprar algo porque é muito caro.

A mudança de mentalidade evidenciada é positiva, pois o início de fim de um tabu é quando começamos a falar sobre o assunto. Contudo, é preciso cuidado na abordagem para que as informações passadas aos filhos não estejam carregas de crenças limitantes.

O verdadeiro legado financeiro não é apenas patrimônio, é repertório. É ensinar a lidar com escolhas, limites e possibilidades.

 

  1. Inclusão financeira com foco em qualidade

O debate sobre inclusão financeira deve amadurecer. Durante muito tempo, inclusão financeira significava garantir acesso a contas bancárias, crédito ou meios de pagamento. 

O avanço da tecnologia e principalmente dos bancos digitais, as Fintechs ampliaram serviços financeiros para públicos antes excluídos, especialmente nos segmentos de crédito, pagamentos e contas digitais. Além disso, ferramentas como PIX diminuíram custos de transação e facilitaram o uso diário de serviços financeiros, integrando pessoas e pequenos empreendedores com mais facilidade ao sistema bancário formal.

Em 2026, fica cada vez mais evidente que acesso, por si só, não transforma realidades.

Crédito caro e mal explicado, produtos inadequados ao perfil da pessoa e informações confusas geram endividamento, ansiedade e sensação de fracasso. Em muitos casos, o aprofundamento das vulnerabilidades ocorre disfarçado de inclusão. 

A verdadeira inclusão financeira precisa considerar qualidade, transparência, custo justo e aderência à realidade de cada pessoa.

Nesse contexto, educação financeira é ser base para uma inclusão que realmente empodera. Ela deixa de ser complementar e passa a ser condição básica. É ela que permite comparar, questionar, negociar e escolher. Sem educação financeira, a pessoa até entra no sistema, mas não se apropria dele. Com educação financeira, ela ganha voz, critério e autonomia.

Em 2026, veremos uma pressão maior por produtos financeiros mais simples, comunicação mais honesta e soluções que respeitem a diversidade de renda, território e momento de vida. 

Desmistificar a economia, aqui, é garantir que o sistema financeiro sirva às pessoas — e não o contrário. 

 

  1. Tendências macroeconômicas: juros, inflação, crescimento e emprego

Ao olhar para 2026, é fundamental sair do achismo e previsões, sim observar os fundamentos e tendências para trazer projeções. 

Recentemente fiz um comentário para o Monitor do Mercado, a partir da leitura do relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que resume bem o momento: o Brasil não vive uma crise aguda, mas entra em um ciclo de crescimento mais lento, que exige maturidade, planejamento e menos improviso.

As projeções indicam que o Produto Interno Bruto deve crescer em torno de 1,8% em 2026, um ritmo moderado, abaixo do observado em anos anteriores. Esse crescimento mais contido reflete uma combinação de fatores: juros ainda elevados, menor estímulo ao investimento produtivo e um mercado de trabalho que tende a se manter relativamente estável, porém sem grandes avanços em renda real.

A taxa Selic segue como variável central. A expectativa é que os juros permaneçam em patamar restritivo no início de 2026, com espaço para reduções graduais ao longo do ano, desde que a inflação continue sob controle. Mesmo com possíveis cortes, a Selic deve encerrar o ano em nível elevado, o que mantém o crédito caro e exige decisões financeiras mais conscientes, tanto de famílias quanto de empresas.

A inflação, por sua vez, tende a se manter próxima da meta, em torno de 4%, dentro da banda estabelecida pelo Banco Central. Esse é um ponto positivo, pois traz previsibilidade e permite planejamento. Embora, inflação controlada não resolva todos os problemas, ela reduz a ansiedade econômica e cria um ambiente um pouco mais favorável para decisões de médio e longo prazo.

No mercado de trabalho, o cenário é de estabilidade. A taxa de desemprego atual é a menor desde 2012 e deve se manter relativamente baixa em 2026. Mas também não significa, necessariamente, melhoria significativa na qualidade da renda ou redução da informalidade. 

Em um contexto de crescimento moderado, educação financeira se torna ainda mais relevante para ajudar as pessoas a protegerem sua renda, organizarem seus recursos e ampliarem possibilidades.

Em síntese, 2026 aponta para um ano que exigirá menos impulso e mais consciência. Em um ambiente econômico mais lento, quem planeja sai na frente. 

Desmistificar a economia, aqui, é mostrar que números não servem para assustar, mas para orientar escolhas mais seguras.

 

  1. Ano eleitoral e a defesa da economia acima da política

2026 é ano de eleições. Há poucos dias, o índice Ibovespa e o dólar apresentaram sobressaltos por causa de oficializações de candidaturas.

Em anos eleitorais, a volatilidade econômica costuma aumentar ainda mais. Discursos, promessas e ruídos impactam expectativas, mercados e decisões.

Eu busco ser imparcial, me detendo a falar de economia e deixo aqui um convite à maturidade econômica:

Políticos passam. A economia fica. Precisamos defender a economia acima de projetos pessoais ou partidários.

Isso significa olhar para fundamentos, dados, sustentabilidade e impacto real na vida das pessoas. Significa não tomar decisões financeiras movidas apenas pelo medo ou pelo barulho do momento.

 

Encerrando 2025 e se abrindo para 2026

Acredito profundamente no poder da palavra. As palavras constroem realidades, moldam escolhas e direcionam caminhos. E ao observar a forma como muitas pessoas se relacionam com o trabalho e com o dinheiro, vejo algo que me incomoda e inquieta: gente vivendo no automático, trabalhando apenas para pagar boletos, mês após mês, sem espaço para sonhar.

Meu desejo para 2026 é mais profundo do que qualquer projeção econômica. 

Desejo que ninguém mais trabalhe apenas para pagar boletos. Que as pessoas trabalhem para realizar seus projetos, seus planos e seus sonhos. 

Que o dinheiro deixe de ser um peso constante e passe a ser visto como aquilo que ele realmente é: uma ponte para nossa satisfação e felicidade.

O dinheiro precisa ocupar o lugar certo na nossa vida. Ele é meio, não fim. Ele existe para apoiar a vida que queremos viver, e não para aprisioná-la. Quando compreendemos isso, mudamos nossa relação com o trabalho, com o consumo e com o futuro.

Economia não somente economizar e investir. É sobretudo, escolhas!

Desmistificar a economia é mostrar que compreender o dinheiro é compreender a vida. É dar sentido às escolhas. 

 

Que 2026 seja abençoado!

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