Meu propósito é desmistificar a economia. Por isso, o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra é também um marco econômico, o qual aproveito para trazer reflexões.

Quando falo de Consciência Negra e economia, falo sobre estrutura de oportunidades. E quando falo sobre estrutura de oportunidades falo sobre participação produtiva e sobre quem consegue acessar o sistema financeiro como protagonista.

Participação produtiva é o coração do desenvolvimento de um país. Desenvolvimento não acontece apenas com boas intenções. Ele acontece quando mais pessoas têm condições reais de acessar informação financeira, investir, empreender, consumir com consciência e fazer o dinheiro circular. 

 

Representatividade importa!

E é aqui que a representatividade no mercado financeiro deixa de ser estética e passa a ser estratégica. Representatividade é mecanismo econômico e é ponto de partida para ampliar a entrada de novas pessoas no sistema.

Quando uma pessoa negra se vê nos espaços de investimento, liderança, tecnologia e finanças algo muda dentro dela. Ela se permite imaginar esse lugar como possível. Representatividade não é propaganda. Representatividade é uma janela de projeção e pertencimento que ativa ambição planejamento e ação concreta. E isso importa porque o Brasil ainda tem um mercado financeiro com inclusão muito baixa e essa baixa inclusão é simultaneamente causa e consequência de desigualdade estrutural.

Apenas 37 por cento das pessoas no país investem e só 3 por cento da população está na bolsa de valores. E é importante lembrar que mais de 56 por cento da população brasileira é negra (pretos ou pardos). Então, se a maioria populacional não se vê dentro do sistema financeiro, como esperar que se interesse, estude, arrisque, construa patrimônio e invista mais? Dificilmente, as pessoas participam daquilo que não se reconhecem como lugar possível. E isso trava o desenvolvimento.

 

Movimento Black Money

Neste ponto, cito o crescimento e a relevância do Black Money que é um movimento que visa o empoderamento econômico-financeiro da população negra. O movimento surgiu nos Estados Unidos no início do século XX e foi liderado pelo ativista jamaicano Marcus Garvey.  

O objetivo do movimento era incentivar o investimento da comunidade negra nela mesma. Nos Estados Unidos, o movimento calculou o tempo que o dinheiro circula dentro de cada comunidade e chegou aos seguintes dados: na comunidade asiática, o dinheiro permanece por 28 dias. Ou seja, o chinês recebe seu salário e come no restaurante de um chinês, compra na padaria de um chinês, coloca o dinheiro no banco de um chinês e etc. Na comunidade judaica, o dinheiro permanece por 19 dias. Na comunidade latina, por sete dias. Já na comunidade negra americana, o dinheiro fica por apenas seis horas. Já no Brasil, ainda não há este estudo.

No Brasil, o Movimento Black Money foi criado por Nina Silva e Alan Soares. Possui o mesmo objetivo que nos Estados Unidos, além de possuir um marketplace ofertado de forma gratuita a afroempreendedores e incentivar e oferecer programas de formações e desenvolvimento à pessoas negras. 

O movimento Black Money sinaliza que existe uma estrutura organizada de fortalecimento econômico da população negra construída por pessoas negras e para pessoas negras com foco em impacto real.

E aqui entra a frase central que precisa ser dita de maneira transparente e sem rodeios: diversidade e inclusão é sim uma questão de justiça social. Entretanto, é sobretudo negócios. Quando o mercado compreende isto, ele deixa de reagir e passa a decidir estrategicamente. A população negra consome quase 2 trilhões de reais por ano, respondendo cerca de 40% do consumo nacional. Número maior que o da Classe A. 

O Raio X do Investidor mostra que 29 por cento das pessoas negras investem contra 37 por cento das pessoas brancas. Além disso, 63 por cento das pessoas negras não guardam dinheiro de nenhuma forma. Esses números não são apenas indicadores sociais. Representam um alerta macroeconômico: um país onde a maioria não investe não cresce em potência. Cresce em desigualdade em concentração de renda.

É por isso que Consciência Negra é também consciência de futuro. O 20 de novembro não é convite à culpa, tampouco é a luta de negros contra brancos. 

Não é um dia para apenas lembrar a história e seguir a vida no dia 21 de novembro, como se nada houvesse a ser feito… é convite à reflexão e à visão estratégica. 

Não há estratégia nacional de crescimento sustentável que possa ignorar inclusão financeira da população negra.

É sobre entender que inclusão financeira não é pauta moral é pauta de desenvolvimento nacional. É sobre criar produtos narrativas e oportunidades que ampliem acesso de forma real e não apenas como comunicação de temporada ou como posicionamento de marketing para datas específicas do calendário.

Quando o ecossistema financeiro amplia acesso, ele não está fazendo favor. Ele está ampliando futuro. O futuro não chega do nada, ele dá sinais. E o sinal agora é este: o Brasil só alcançará seu potencial econômico quando a representatividade for percebida como motor de geração de riqueza e não como concessão. 

Precisamos de mais pessoas podendo investir, empreender, acessar crédito justo, construir patrimônio, multiplicar resultados e participar da criação de valor que move o país para frente.

 

Consciência Negra é também consciência econômica

Quando olhamos para o movimento Black Money, para os dados da população negra no consumo nacional, para a diferença de taxa de investimento e para o impacto estrutural da representatividade, percebemos que este tema não é um recorte isolado ou um capítulo paralelo da agenda financeira. Este tema é um dos motores de futuro do Brasil.

O país que compreender isto mais cedo sai na frente. O país que postergar esta compreensão continuará perdendo energia, capital, talento, criatividade, renda, inovação e competitividade global. Inclusão financeira não é concessão. Inclusão financeira é produtividade. E produtividade é o que faz países crescerem.

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