A saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar para se tornar uma responsabilidade das organizações. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio de 2026, as empresas passaram a incorporar os fatores de riscos psicossociais ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), reforçando a importância de ambientes de trabalho mais saudáveis.
Esse processo ainda passa por ajustes. A fiscalização vem sendo conduzida de forma orientativa e, por decisão do Supremo Tribunal Federal, as sanções relacionadas especificamente aos riscos psicossociais foram temporariamente suspensas enquanto critérios técnicos e operacionais são discutidos. No entanto, isso não altera um ponto essencial: a necessidade de as organizações compreenderem, identificarem e gerenciarem fatores que afetam a saúde mental de seus trabalhadores continua vigente.
E é nesse contexto que proponho ampliar a reflexão.
Quando falamos em riscos psicossociais, pensamos imediatamente em excesso de trabalho, metas desafiadoras, conflitos entre equipes, assédio ou falhas na liderança.
Todos esses fatores merecem atenção. Mas existe outro elemento que frequentemente permanece invisível dentro das organizações: o estresse financeiro.
Embora muitas vezes seja tratado como um problema exclusivamente pessoal, seus impactos ultrapassam a vida privada e chegam ao ambiente corporativo.
Uma pessoa preocupada com dívidas, contas atrasadas ou dificuldades para sustentar sua família dificilmente consegue deixar essas preocupações do lado de fora da empresa. O dinheiro não fica na porta quando o expediente começa.
Essa preocupação acompanha reuniões, compromete a concentração, reduz a capacidade de tomada de decisão, aumenta o nível de ansiedade, interfere na qualidade do sono e pode contribuir para conflitos, afastamentos e queda de produtividade.
Em outras palavras, os problemas financeiros dos colaboradores também representam um custo para as organizações.
É um custo invisível. Não aparece em uma linha específica do balanço patrimonial, mas se manifesta no aumento do absenteísmo, do presenteísmo, da rotatividade, dos erros operacionais, da utilização dos planos de saúde e na perda de engajamento das equipes.
Compreendi isso a bastante tempo. Muito antes de empreender ou dos termos saúde financeira ou estresse financeiro serem, de fato, atrelados a saúde mental à luz da NR1.
Durante minha trajetória no mundo corporativo, tive a oportunidade de acompanhar colegas extremamente competentes que, em determinados momentos da vida, enfrentavam dificuldades financeiras importantes. Em muitos casos, não era falta de renda. Era falta de informação, de planejamento e, principalmente, de uma relação mais saudável com o dinheiro.
Lembro de profissionais que solicitavam antecipações salariais recorrentes, viviam preocupados com cobranças, apresentavam dificuldade de concentração e carregavam um peso emocional que inevitavelmente impactava seu trabalho.
Na época, ainda não existia a discussão que temos hoje sobre saúde financeira corporativa. Mas aquelas experiências despertaram em mim uma certeza que mais tarde direcionaria minha carreira: falar sobre dinheiro é, antes de tudo, falar sobre pessoas.
Foi essa convicção que me levou a criar a DS Estratégias de Educação & Inteligência Financeira.
Hoje trabalho ao lado de empresas que compreenderam ou buscam apoio para compreender que educação financeira não deve ser vista apenas como um benefício oferecido ao colaborador. Trata-se de uma estratégia capaz de fortalecer o bem-estar das pessoas e, ao mesmo tempo, gerar resultados para a organização.
É importante destacar que a educação financeira não elimina os riscos psicossociais previstos na NR-1, tampouco substitui políticas de saúde ocupacional, gestão de pessoas ou programas de saúde mental.
Ela deve ser entendida como uma ação complementar, integrada a uma estratégia mais ampla de promoção do bem-estar.
Quando as pessoas aprendem a organizar o orçamento, administrar dívidas, criar uma reserva financeira e desenvolver uma relação mais consciente com o dinheiro, elas reduzem uma importante fonte de estresse presente na vida cotidiana.
E colaboradores emocionalmente mais tranquilos tendem a tomar melhores decisões, estabelecer relações mais saudáveis e desempenhar suas atividades com maior foco.
As empresas também colhem os resultados.
Por isso, deixo algumas recomendações para organizações que desejam fortalecer sua estratégia de gestão dos riscos psicossociais.
- Inclua a saúde financeira na agenda do bem-estar. Não trate o tema apenas durante campanhas pontuais. Educação financeira deve fazer parte da cultura organizacional.
- Escute as pessoas. Pesquisas internas podem revelar o nível de preocupação financeira dos colaboradores e ajudar a direcionar ações mais assertivas.
- Invista em educação, e não apenas em informação. Distribuir cartilhas não transforma comportamentos. Mudanças consistentes acontecem por meio de programas estruturados, linguagem acessível e acompanhamento.
- Prepare as lideranças. Gestores não precisam (e nem devem) resolver problemas financeiros dos colaboradores, mas podem ser mais empáticos, aprender a reconhecer sinais de sofrimento e encaminhar adequadamente cada situação.
- Avalie resultados. Acompanhe indicadores como satisfação, absenteísmo, rotatividade e percepção de bem-estar para medir os impactos das iniciativas.
Eu defendo que economia é, sobretudo, pessoas.
E essa frase resume a forma como compreendo meu trabalho e também a oportunidade que a NR-1 apresenta às organizações.
Mais do que atender a uma exigência normativa, este é um convite para sair do discurso: “pessoas representam o ativo mais valioso da empresa” e realmente olhar as pessoas de forma integral.
Além disso, quando uma empresa cuida da saúde financeira de seus colaboradores, ela não está apenas ajudando indivíduos a organizar suas contas. Está fortalecendo sua cultura, reduzindo custos invisíveis, promovendo bem-estar e construindo um ambiente onde pessoas e negócios podem prosperar juntos.
Investir em educação financeira não é apenas uma ação social. É uma decisão inteligente de gestão.