As bets estão crescendo no Brasil, e isso não é apenas um fenômeno do mercado. É um retrato do comportamento humano.

Por trás de cada aposta, não existe apenas a busca por dinheiro, há expectativa, emoção, urgência e, muitas vezes, a tentativa de recuperar perdas. Existe decisão e, as decisões financeiras não são apenas racionais, são profundamente emocionais.

As apostas, as famosas bets já representam a principal causa de endividamento.

E se quisermos entender o avanço das apostas, o aumento do endividamento e as dificuldades das pessoas em organizar sua vida financeira, precisamos ir além dos números. Precisamos entender como as pessoas pensam, sentem e escolhem.

Afinal, economia não é somente economizar e investir. É, sobretudo, escolhas.

E escolhas são feitas por pessoas.

Por muito tempo, a economia foi apresentada como uma ciência da racionalidade.

Eu mesma, quando iniciei meus estudos em economia, a disciplina de economia comportamental ainda não integrava os currículos formais. Ainda assim, de maneira intuitiva e a partir da observação da vida real, eu já percebia que decisões de consumo, poupança, investimento e endividamento nem sempre obedeciam ao ideal de racionalidade econômica. 

As pessoas não escolhem apenas com números. Escolhem, sobretudo com memórias, medos, desejos e expectativas sobre o futuro. Basta observar o cotidiano.

Quantas vezes alguém mantém uma dívida que já sabe que não deveria?
Quantas decisões de consumo são tomadas por impulso?
Quantos planos financeiros são abandonados no meio do caminho?

A resposta para essas perguntas, ratifica meu pensamento: Economia é sobre pessoas.

 

A ruptura com o mito da racionalidade

Os trabalhos de Daniel Kahneman e Amos Tversky transformaram a forma como entendemos o comportamento econômico.

Ao investigar decisões sob risco, eles demonstraram que utilizamos atalhos mentais, as chamadas heurísticas para lidar com a complexidade do mundo. Esses atalhos tornam as decisões mais rápidas, mas também introduzem distorções sistemáticas.

Ou seja: não se trata de erro pontual. Trata-se de um padrão humano.

 

Quando a forma muda a decisão

Um dos achados mais importantes da economia comportamental é o chamado efeito de enquadramento. Nos experimentos conduzidos por Kahneman e Tversky, as pessoas eram convidadas a tomar decisões diante de um mesmo problema, com resultados matematicamente idênticos. No experimento, as pessoas foram convidadas a escolher entre alternativas com resultados matematicamente equivalentes. A única diferença estava na forma como as opções eram apresentadas.

Quando o resultado era descrito em termos de vidas salvas, a maioria das pessoas escolhia a opção mais segura. Já , quando o mesmo resultado era descrito em termos de mortes, a preferência mudava para a alternativa mais arriscada.

Ou seja, a decisão mudava mesmo quando o problema era exatamente o mesmo.

É por isso que a forma como interpretamos uma situação influencia tanto nossas decisões. Ou seja: não decidimos apenas com base nos fatos, mas na forma como esses fatos são apresentados e percebidos

A mesma situação pode ser interpretada como uma oportunidade de ganho ou como uma possibilidade de perda, e essa diferença muda a decisão.

O efeito enquadramento aparece, no dia a dia, quando:

 

A dor de perder e o peso das decisões financeiras

Outro conceito central da economia comportamental é a aversão à perda.

Na prática, perder tem um impacto emocional maior do que ganhar o mesmo valor.

Essa assimetria ajuda a explicar comportamentos comuns, como:

Mais uma vez, não se trata de desconhecimento técnico. Trata-se de como o cérebro humano processa perdas e ganhos.

Um exemplo simples do dia a dia:

Imagine alguém que perdeu dinheiro em uma aposta.

Diante disso, essa pessoa poderia parar. No entanto, ela continua apostando não porque gosta de risco, mas porque quer recuperar o que perdeu.

Consegue perceber a diferença? O comportamento não é guiado pela busca do risco, mas pela tentativa de evitar a perda.

 

Os vieses que moldam a vida financeira

A economia comportamental também identifica padrões recorrentes que influenciam decisões no dia a dia.

Entre eles, destacam-se:

Esses mecanismos mostram que o comportamento financeiro não pode ser compreendido apenas por variáveis tradicionais, como renda ou taxa de juros.

Existe uma dimensão subjetiva e poderosa orientando cada escolha.

 

Quando o comportamento vira risco coletivo: o caso das bets

Se alguém ainda acredita que decisões financeiras são racionais, basta olhar para um fenômeno recente no Brasil: o crescimento das apostas online.

As chamadas “bets” não são apenas uma tendência de consumo. Elas se tornaram um retrato claro de como o comportamento influencia decisões financeiras.

Estudo recente do IBEVAR em parceria com a FIA Business School mostra que as apostas online já figuram entre os principais fatores de endividamento das famílias brasileiras, superando inclusive elementos tradicionais como juros e crédito.

O dado revela que não estamos falando apenas de falta de informação financeira.
Estamos falando de decisões tomadas sob influências emocionais como:

Na prática, as bets ativam diversos vieses comportamentais ao mesmo tempo.

A promessa de ganho rápido conversa diretamente com o viés do presente.
A continuidade das apostas, mesmo diante de perdas, revela a aversão à perda em ação.
E a ainda a forte crença de que “na próxima eu ganho” evidencia o excesso de confiança.

Mais uma vez, a evidência de que economia não é somente economizar e investir. É, sobretudo, escolhas. 


E escolhas são humanas, imperfeitas e profundamente influenciadas pelo contexto.

 

Educação financeira: da teoria à vida real

A educação financeira, que são os conhecimentos adquiridos sobre finanças, tem o papel fundamental de quebrar tabus e desfazer crenças. Ela tem o objetivo de gerar consciência, autonomia e dignidade, pois organizar o dinheiro é, antes de tudo, um ato de cuidado consigo mesmo.

Entretanto, modelos tradicionais de educação financeira, centrados apenas na transmissão de informação, partem de um pressuposto equivocado: o de que saber é suficiente para fazer.

Mas a prática mostra que não é. Por isso, eu defendo a diferenciação entre educação financeira e inteligência financeira. Enquanto a educação financeira está relacionada ao aprendizado, a inteligência financeira refere-se à capacidade de aplicar esse conhecimento na prática. Uma fortalece a outra: sem educação financeira, dificilmente há inteligência financeira, e sem aplicação o conhecimento perde sentido.

Saber o que deve ser feito não garante que será feito.

Por isso, uma abordagem mais efetiva precisa considerar:

Precisa reconhecer que decisões financeiras são, antes de tudo, comportamentais.

 

Desmistificando® a economia tem o objetivo de aproximá-la da vida real

Para buscar uma solução, acredito que é preciso sair do discurso técnico distante e construir uma linguagem que dialogue com a experiência concreta das pessoas.

Mais do que ensinar conceitos, trata-se de:

Nesse sentido, a educação financeira deixa de ser apenas uma ferramenta individual e passa a ser um instrumento de inclusão e desenvolvimento.

 

Compreender o comportamento é compreender a economia

A contribuição da economia comportamental não foi apenas acadêmica. Ela reposicionou o olhar sobre a tomada de decisão.

Mostrou que racionalidade, emoção e contexto coexistem.  E que compreender essa interação é essencial para qualquer pessoa gerir suas finanças.

Minha trajetória, tanto acadêmica quanto profissional, reforça essa visão.

Antes mesmo de conhecer formalmente a teoria, a prática já indicava: pessoas não decidem apenas com números. Decidem com histórias, vivências e expectativas.

Por isso, desmistificar a economia é, sobretudo, devolver a economia às pessoas.

E, não se trata de ensinar o cálculo de juros compostos e sim, ajudar as pessoas a lidar com o dinheiro e compreender como decidem.


Organizar a vida financeira é, antes de tudo, organizar a forma como fazemos escolhas.

 

Referências

ANBIMA. Raio X do Investidor Brasileiro 2025. Disponível em: https://www.anbima.com.br/pt_br/noticias/raio-x-brasil-pode-ter-18-milhoes-de-novos-investidores-e-investidoras-em-2025.htm. Acessado em: 16/02/2025.

ARIELY, Dan. Previsivelmente irracional. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

THALER, Richard; SUNSTEIN, Cass. Nudge: o empurrão para a escolha certa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

TVERSKY, Amos; KAHNEMAN, Daniel. Teoria da perspectiva: uma análise da decisão sob risco. Econometrica, 1979.

UOL Economia. Bets viram maior motor do endividamento das famílias no Brasil, diz estudo. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/03/26/bets-viram-maior-motor-do-endividamento-das-familias-no-brasil-diz-estudo.htm. Acessado em: 30/03/2026.

 

Sobre mim

 

Sou Dirlene Silva, a mãe da Joana, a filha da Vera e irmã da Marcia e da Marta. Sou conhecida como a Filha da Lixeira que se tornou referência em educação financeira. Transformei minha história, marcada por desafios financeiros e sociais em um propósito: Desmistificar economia e finanças, apoiando pessoas e organizações na construção de relações mais saudáveis com o dinheiro.

Sou economista, mestre em Gestão e Negócios pela Université de Poitiers/França e Unisinos/Brasil, MBA Finanças Corporativas e Valor das Organizações, MBA Gestão de Pessoas e Pós-MBA em Inteligência Emocional. Possuo formações em Coach Financeiro, Coach Gestão das Emoções, Economia Comportamental e em Governança Corporativa pelo Instituto Conselheira 101, IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, Board Academy e Fundação Dom Cabral (FDC).

Atuei por mais de mais 25 anos como executiva nas áreas de Finanças e Gestão Estratégica em Empresas. Hoje sou multicarreira: Fundadora e CEO na DS Estratégias de Educação e Inteligência Financeira, palestrante, colunista, professora nas escolas de negócios, consultora associada da Korn Ferry e embaixadora no Clube Mulheres de Negócios em Língua Portuguesa – CMNLP.

Sou conselheira no Centro de Estudos e Pesquisas em Educação Cultura e Ação Comunitaria (CENPEC) e no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) da Presidência da República, o qual integro a comissão de Assuntos econômicos e participo da Estratégia Nacional de Educação Financeira e sou membro do IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, integrando as comissões: Diversidade e Governança do Futuro.

PRINCIPAIS RECONHECIMENTOS: Linkedin Top Voices&creator, eleita umas das 50 pessoas mais criativas do Brasil, segundo a Revista Wired, troféu Business Woman pela The Norns Awards. Fui reconhecida uma das 10 Mulheres que revolucionaram o universo das finanças pelo Banco PAN e uma das 20 maiores Influencers do LinkedIn pelo Ibest em 2023, 2024 e 2025. Integro a Comunidade Forbes BLK.

Se você chegou até aqui… Te convido a assistir meu TEDx, “Você pode ter os sonhos que quiser, nossos sonhos são livres!” https://www.youtube.com/watch?v=bcJy8t8zDwk

 

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